Mário Simon
- “Madrugada do Rio Grande, sim senhor”! E quem disse isso? E quem inventou essa denominação para a Capital das Missões? Embora não mais tão frequente, esse título ainda se levanta em discursos inflamados de ardor provinciano, tanto dos pulmões de políticos como das falas de tradicionalistas em tempos de 22 de março ou de 20 de setembro. Soa bonito e simpático. Não muito histórico, mas empurra o ouvinte para as brumas da história, muito mais bruma que história. É tão eloquente que poderá fazer um Moysés Vellinho se virar no túmulo ou um Décio Freitas rir à socapa. De minha parte, nem rio nem silencio: tento entender o que navega por trás desta “Madrugada”. Por isso, dou rédeas aos aspectos apologéticos do nobre título e vou-me às possíveis glórias das quais seríamos herdeiros por sermos conterrâneos. - De onde veio essa designação? Quem a proferiu primeiro? Felizmente, por um desses estranhos meandros da história, temos a resposta. Foi o cidadão Constantino Anesi, abnegado colaborador de tantas entidades esportivas, culturais e sociais, quase sempre no cargo de Secretário dado sua familiaridade com as letras, foi ele que nos legou a resposta. Segundo o que narra, no crepitar da “Semana Farroupilha” de 1978, o então prefeito de Santo Ângelo Carlos Wilson Schröeder acedeu em proferir uma palestra sobre os farrapos de 35, na Esquina Marcelo, então interior do município de Santo Ângelo. E foi lá, dentro de um salão comunitário que, no entusiasmo da conhecida verve do prefeito Carlinhos, se ouviu soar pela vez primeira, para os quatro ventos da história, o “Santo Ângelo, Madrugada do Rio Grande”. Talvez nem tivesse surpreendido a ninguém da atenta plateia. Talvez tivesse arrancado aplausos. Mas o cidadão Constantino Anesi, lá no fundo da sala, encostado a um balcão de tábuas e bebericando uma cerveja, plugou-se. Anotou e passou a usá-la em seus escritos de divulgação turística, difundindo-a e, por um bom tempo, essa nova denominação incendiou os discursos e estimulou os apelos patriótico-missioneiros. E infiltrado em todas as formas de comunicação, atingiu, também, as raízes da inteligência preocupada com a fidelidade histórica e a cultura em suas resvaladias manifestações. Ganhou terreno popular pelo imenso conteúdo telúrico, mas acendeu, junto, a desconfiança das cabeças pensantes. Pois bem. Defender esse título criado pelo “Scheredão” - epíteto pouco aconselhável para o autor da nova designação - quem há de? Lembro-me do sorriso sarcástico do historiador Moysés Vellinho respondendo a questões sobre Sepé Tiaraju em depoimento prestado para o filme “República Guarani”, do polêmico cineasta Silvio Back. Aquele historiador menosprezava a contribuição histórica das Missões para a formação do Rio Grande. Tamparia os ouvidos se ouvisse essa nossa “Madrugada do Rio Grande”. Mas o povo de Santo Ângelo somos missioneiros e por isso ouvimo-la diferente. Talvez assim: em que pesem as lamentações das cabeças voltadas para a fidelidade histórica - aquelas preocupações de ordem cronológica -, Santo Ângelo detém historicamente o título de Capital das Missões. Não apenas como herança legítima da lendária São Miguel das Missões, aquela que foi até 1756 a verdadeira capital dos Sete Povos, mas como credora das primeiras manifestações de soerguimento dos antigos Sete Povos e de forças de fixação no solo em disputa entre Portugal e Espanha. A dita “terra de ninguém de após a decadência missioneira, sacrilicamente tomada aos índios de Sepé, teve no desenvolvimento de Santo Ângelo um polo de apoio que extrapolou a questão em armas”. Plantou-se, aqui, uma gente rio-grandense decidida a ser brasileira a qualquer custo. E foi, à força da permanência no solo, na defesa da terra e fixação dos filhos dos filhos dos filhos, que floresceu a semente plantada aos gritos de Sepé Tiaraju, madrugando o puro Rio Grande de hoje. E não é sem significado que Santo Ângelo é um dos mais antigos municípios dos Sete Povos a receber, por Lei de 1873 - 22 de março -, o caráter de cidade. Não tivesse esse povo missioneiro trazido perenemente viva a chama telúrica vinda do berço da civilização guaranítica, amornaria o calor do fogo que ardia no peito gaúcho em defesa da terra. Mesclaram-se as raças na travessia dos séculos, as ondas da aventura lusa sorveram-se na coragem missioneira e, resultou daí, um sangue novo, o inconfundível sangue gaúcho. É por isso que se justifica a denominação supostamente pretensiosa, porque há gotas de madrugada nas veias desse povo de Santo Ângelo, uma linhagem direta de quem sempre quis ser livre, incontestável herança missioneira. Santo Ângelo - Madrugada do Rio Grande - não é apenas um título: é o grito de posse de uma herança legítima de quem jamais negou as raízes de sua história.
- “Madrugada do Rio Grande, sim senhor”! E quem disse isso? E quem inventou essa denominação para a Capital das Missões? Embora não mais tão frequente, esse título ainda se levanta em discursos inflamados de ardor provinciano, tanto dos pulmões de políticos como das falas de tradicionalistas em tempos de 22 de março ou de 20 de setembro. Soa bonito e simpático. Não muito histórico, mas empurra o ouvinte para as brumas da história, muito mais bruma que história. É tão eloquente que poderá fazer um Moysés Vellinho se virar no túmulo ou um Décio Freitas rir à socapa. De minha parte, nem rio nem silencio: tento entender o que navega por trás desta “Madrugada”. Por isso, dou rédeas aos aspectos apologéticos do nobre título e vou-me às possíveis glórias das quais seríamos herdeiros por sermos conterrâneos. - De onde veio essa designação? Quem a proferiu primeiro? Felizmente, por um desses estranhos meandros da história, temos a resposta. Foi o cidadão Constantino Anesi, abnegado colaborador de tantas entidades esportivas, culturais e sociais, quase sempre no cargo de Secretário dado sua familiaridade com as letras, foi ele que nos legou a resposta. Segundo o que narra, no crepitar da “Semana Farroupilha” de 1978, o então prefeito de Santo Ângelo Carlos Wilson Schröeder acedeu em proferir uma palestra sobre os farrapos de 35, na Esquina Marcelo, então interior do município de Santo Ângelo. E foi lá, dentro de um salão comunitário que, no entusiasmo da conhecida verve do prefeito Carlinhos, se ouviu soar pela vez primeira, para os quatro ventos da história, o “Santo Ângelo, Madrugada do Rio Grande”. Talvez nem tivesse surpreendido a ninguém da atenta plateia. Talvez tivesse arrancado aplausos. Mas o cidadão Constantino Anesi, lá no fundo da sala, encostado a um balcão de tábuas e bebericando uma cerveja, plugou-se. Anotou e passou a usá-la em seus escritos de divulgação turística, difundindo-a e, por um bom tempo, essa nova denominação incendiou os discursos e estimulou os apelos patriótico-missioneiros. E infiltrado em todas as formas de comunicação, atingiu, também, as raízes da inteligência preocupada com a fidelidade histórica e a cultura em suas resvaladias manifestações. Ganhou terreno popular pelo imenso conteúdo telúrico, mas acendeu, junto, a desconfiança das cabeças pensantes. Pois bem. Defender esse título criado pelo “Scheredão” - epíteto pouco aconselhável para o autor da nova designação - quem há de? Lembro-me do sorriso sarcástico do historiador Moysés Vellinho respondendo a questões sobre Sepé Tiaraju em depoimento prestado para o filme “República Guarani”, do polêmico cineasta Silvio Back. Aquele historiador menosprezava a contribuição histórica das Missões para a formação do Rio Grande. Tamparia os ouvidos se ouvisse essa nossa “Madrugada do Rio Grande”. Mas o povo de Santo Ângelo somos missioneiros e por isso ouvimo-la diferente. Talvez assim: em que pesem as lamentações das cabeças voltadas para a fidelidade histórica - aquelas preocupações de ordem cronológica -, Santo Ângelo detém historicamente o título de Capital das Missões. Não apenas como herança legítima da lendária São Miguel das Missões, aquela que foi até 1756 a verdadeira capital dos Sete Povos, mas como credora das primeiras manifestações de soerguimento dos antigos Sete Povos e de forças de fixação no solo em disputa entre Portugal e Espanha. A dita “terra de ninguém de após a decadência missioneira, sacrilicamente tomada aos índios de Sepé, teve no desenvolvimento de Santo Ângelo um polo de apoio que extrapolou a questão em armas”. Plantou-se, aqui, uma gente rio-grandense decidida a ser brasileira a qualquer custo. E foi, à força da permanência no solo, na defesa da terra e fixação dos filhos dos filhos dos filhos, que floresceu a semente plantada aos gritos de Sepé Tiaraju, madrugando o puro Rio Grande de hoje. E não é sem significado que Santo Ângelo é um dos mais antigos municípios dos Sete Povos a receber, por Lei de 1873 - 22 de março -, o caráter de cidade. Não tivesse esse povo missioneiro trazido perenemente viva a chama telúrica vinda do berço da civilização guaranítica, amornaria o calor do fogo que ardia no peito gaúcho em defesa da terra. Mesclaram-se as raças na travessia dos séculos, as ondas da aventura lusa sorveram-se na coragem missioneira e, resultou daí, um sangue novo, o inconfundível sangue gaúcho. É por isso que se justifica a denominação supostamente pretensiosa, porque há gotas de madrugada nas veias desse povo de Santo Ângelo, uma linhagem direta de quem sempre quis ser livre, incontestável herança missioneira. Santo Ângelo - Madrugada do Rio Grande - não é apenas um título: é o grito de posse de uma herança legítima de quem jamais negou as raízes de sua história.
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