Mário Simon
Em 22 de março de 1821, o botânico francês Auguste de Saint–Hilaire esteve na aldeia de Santo Ângelo Custódio. Pois é da passagem deste cientista por Santo Ângelo há exatamente 190 anos que buscamos alguns quadros da história do último dos Povos Missioneiros. O cientista partiu de São João Batista acompanhado apenas de dois jovens índios, a cavalo, já que lhe haviam avisado que seria difícil chegar a Santo Ângelo com sua carroça, pois enfrentaria dois rios: o Juimirim (que ele traduz como rio dos sapos), e o Juicuaçu que, sem dúvida, trata dos rios Ijuí e do rio Ijuizinho. Chama-os de rios perigosos.
O que nos interessa desse diário escrito em algum quarto de pedra e pó do antigo Povo de Santo Ângelo é a descrição da igreja, das casas e, principalmente dos habitantes. Que coisa miserável!
- Os jesuítas parecem ter querido demonstrar, de modo simbólico, a sua intenção de não ir mais longe, pois sendo as igrejas de todas as aldeias (das Missões) voltadas para o norte, a de Santo Ângelo olha para o sul. Essa é a conclusão a que o naturalista francês chegou quanto à polêmica a respeito do posicionamento da igreja e, consequentemente, de toda a redução.
Ainda sobre a igreja de Santo Ângelo, Saint-Hilaire diz que era muito semelhante às de São Borja, São Nicolau, São Luiz e São Lourenço (e nós costumamos dizer que é quase uma réplica da de São Miguel). Embora em péssimo estado, ainda conservava muita beleza. Não se refere à estatuária, mas sabe-se que por esta data ainda havia muitos exemplares desta arte missioneira, entre eles o de um Arcanjo que, segundo Wolfgang Hoffmann Harnisch, “montava guarda na tradicional igreja como anjo custódio, na entrada setentrional das Missões”. Esta estátua, segundo o mesmo autor, estaria hoje no Colégio Cristo Rei, dos Jesuístas de São Leopoldo. Mas esta afirmação não se confirmou, pois que lá estivemos procurando-a em novembro de 1983 e, juntamente com o jesuíta e renomado estudioso das Missões Pe.Artur Rabuske–S.J, não vimos nada, nem pistas dessa imagem. Que lástima!
O que mais marca na leitura do diário de Saint–Hilaire sobre Santo Ângelo é o panorama da população santo-angelense de 22 de março 1821. Descreve um quadro de miséria tão grande que o pároco local, chorando, contava-lhe que os pobres índios roubavam couro de boi para comer. Muita gente morreu de fome. Da antiga Redução de Santo Ângelo, que foi o mais rico dos Sete Povos, que recebeu os mais notáveis artistas do tempo, que em 1753 tinha em suas ruas 1.180 residências de índios abrigando 5.417 pessoas, em 1821 Saint–Hilaire encontrou apenas 80 pessoas e, destas, apenas uns dez homens em condições de trabalhar. Das casas, somente seis em condições de habitar. Ele mesmo hospedou-se na residência do padre, da qual descreve o antigo brilho assim: o leito, as cortinas das janelas e das portas são de damasco, mas chove dentro da casa e, em breve, tudo estará estragado.
Quadro pior ainda é o da situação das mulheres de Santo Ângelo, por aquela época. Eram elas que cuidavam das plantações, fazendo duas léguas de ida e duas de volta, diariamente, para o trabalho, enquanto os homens se preocupam em fazer mate. Nesse tocante, à decadência física segue-se a decadência moral. Saint-Hilaire diz que as mulheres são despudoradas e parecem ter nascido para a perdição dos homens de nossa raça. Refere-se à facilidade com que, casadas e solteiras ofereciam-se aos brancos visitadores e, invariavelmente transmitiam-lhes moléstias venéreas. É bom lembrar aqui que os jesuítas haviam se afastado da Redução há 53 anos, expulsos que foram. E os antigos ensinamentos desses padres sobre a moral cristã já haviam sido esquecidos, e tais procedimentos, mesmo à vista de seus maridos, eram feitos e depois relatados com ar de simplicidade, quase de inocência.
É bom lembrar que, neste período de decadência, Santo Ângelo estava sob o governo civil de portugueses. E como só restavam crianças, mulheres e alguns homens velhos, e muita imoralidade, Saint–Hilaire, escreveu ao administrador português das Missões, coronel Antônio José da Silva Paulet, sugerindo-lhe que extinguisse três dos antigos Sete Povos: Santo Ângelo, São Luiz e São Lourenço. Só assim haveria mais facilmente de se cuidar das outras aldeias e dar-lhe a assistência devida. No entanto, a história se fez diferente: Santo Ângelo não foi suprimida, embora chegou a ficar totalmente desabitada por algum tempo. Exatos 52 anos depois, emancipava-se.
P.S. –(Texto condensado e adaptado de parte do capítulo III do livro Os Sete Povos das Missões -Trágica Experiência, de nossa autoria.
O que nos interessa desse diário escrito em algum quarto de pedra e pó do antigo Povo de Santo Ângelo é a descrição da igreja, das casas e, principalmente dos habitantes. Que coisa miserável!
- Os jesuítas parecem ter querido demonstrar, de modo simbólico, a sua intenção de não ir mais longe, pois sendo as igrejas de todas as aldeias (das Missões) voltadas para o norte, a de Santo Ângelo olha para o sul. Essa é a conclusão a que o naturalista francês chegou quanto à polêmica a respeito do posicionamento da igreja e, consequentemente, de toda a redução.
Ainda sobre a igreja de Santo Ângelo, Saint-Hilaire diz que era muito semelhante às de São Borja, São Nicolau, São Luiz e São Lourenço (e nós costumamos dizer que é quase uma réplica da de São Miguel). Embora em péssimo estado, ainda conservava muita beleza. Não se refere à estatuária, mas sabe-se que por esta data ainda havia muitos exemplares desta arte missioneira, entre eles o de um Arcanjo que, segundo Wolfgang Hoffmann Harnisch, “montava guarda na tradicional igreja como anjo custódio, na entrada setentrional das Missões”. Esta estátua, segundo o mesmo autor, estaria hoje no Colégio Cristo Rei, dos Jesuístas de São Leopoldo. Mas esta afirmação não se confirmou, pois que lá estivemos procurando-a em novembro de 1983 e, juntamente com o jesuíta e renomado estudioso das Missões Pe.Artur Rabuske–S.J, não vimos nada, nem pistas dessa imagem. Que lástima!
O que mais marca na leitura do diário de Saint–Hilaire sobre Santo Ângelo é o panorama da população santo-angelense de 22 de março 1821. Descreve um quadro de miséria tão grande que o pároco local, chorando, contava-lhe que os pobres índios roubavam couro de boi para comer. Muita gente morreu de fome. Da antiga Redução de Santo Ângelo, que foi o mais rico dos Sete Povos, que recebeu os mais notáveis artistas do tempo, que em 1753 tinha em suas ruas 1.180 residências de índios abrigando 5.417 pessoas, em 1821 Saint–Hilaire encontrou apenas 80 pessoas e, destas, apenas uns dez homens em condições de trabalhar. Das casas, somente seis em condições de habitar. Ele mesmo hospedou-se na residência do padre, da qual descreve o antigo brilho assim: o leito, as cortinas das janelas e das portas são de damasco, mas chove dentro da casa e, em breve, tudo estará estragado.
Quadro pior ainda é o da situação das mulheres de Santo Ângelo, por aquela época. Eram elas que cuidavam das plantações, fazendo duas léguas de ida e duas de volta, diariamente, para o trabalho, enquanto os homens se preocupam em fazer mate. Nesse tocante, à decadência física segue-se a decadência moral. Saint-Hilaire diz que as mulheres são despudoradas e parecem ter nascido para a perdição dos homens de nossa raça. Refere-se à facilidade com que, casadas e solteiras ofereciam-se aos brancos visitadores e, invariavelmente transmitiam-lhes moléstias venéreas. É bom lembrar aqui que os jesuítas haviam se afastado da Redução há 53 anos, expulsos que foram. E os antigos ensinamentos desses padres sobre a moral cristã já haviam sido esquecidos, e tais procedimentos, mesmo à vista de seus maridos, eram feitos e depois relatados com ar de simplicidade, quase de inocência.
É bom lembrar que, neste período de decadência, Santo Ângelo estava sob o governo civil de portugueses. E como só restavam crianças, mulheres e alguns homens velhos, e muita imoralidade, Saint–Hilaire, escreveu ao administrador português das Missões, coronel Antônio José da Silva Paulet, sugerindo-lhe que extinguisse três dos antigos Sete Povos: Santo Ângelo, São Luiz e São Lourenço. Só assim haveria mais facilmente de se cuidar das outras aldeias e dar-lhe a assistência devida. No entanto, a história se fez diferente: Santo Ângelo não foi suprimida, embora chegou a ficar totalmente desabitada por algum tempo. Exatos 52 anos depois, emancipava-se.
P.S. –(Texto condensado e adaptado de parte do capítulo III do livro Os Sete Povos das Missões -Trágica Experiência, de nossa autoria.
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