Crônica de Mário Simon
Em São Miguel, o das Missões, a história não quer ir embora. Lá, diferente de outras cidades, a história aconteceu e, por encanto misterioso, ficou ali. Mesmo com a urbe expandindo-se em belas e arejadas avenidas que vão pedindo cancha para o progresso, mesmo com as modernas casas de cores joviais, mesmo com os confortáveis salões para pousos luxuosos, a história está enfeitiçada naqueles recantos.
Nada! Você desvia os olhos para a larga praça alcatifada de verde, e ela, a história, está bem ali, descansando, à noite, no abrigo das pedras talhadas, e saindo, de dia, para as ruas, para os pátios, para as praças, bem à luz do sol ou no frescor das chuvas. E você pode vê-la ora visível nas faces das casas, ora nos muros dos quintais, já nas flores que colorem as ruas, já nas promessas do futuro, quer nos espetáculos da antiga praça das rezas, quer no coração pulsante das salas de aula.
Quem te viu, São Miguel, e quem te vê! Quem te viu dolorosa no abandono de séculos, e quem te vê brotando em vida, vestindo a roupa de nosso tempo! Quem te viu pedinte, e quem te vê somando riquezas de metro em metro sobre o terreno de tantos sonhos abortados. Quem te viu um monte de pedras esquecidas, e quem te vê guardando as mesmas pedras como precioso tesouro. Ah, sim, era esse o tesouro dos padres, e não sabíamos.
Sim, a história nunca foi embora de São Miguel. Não fosse assim, como explicar essa magia capaz de ressuscitar do fundo dos séculos o cacique e o padre para fazer companhia ao anjo guerreiro? Vejam, eles estão lá, de olho na estrada, cuidando quem chega em busca da São Miguel da índia Lindóia, a Julieta das Missões. Eles estão lá num misto de boas-vindas e prontidão de guarda, imponentes no portal miguelista. Como foi isso? Bastou ao Michelangelo dos pampas, Tadeu Martins, enterrar as mãos na massa para dar vida à areia e ao ferro que o “gênio das Missões” fundiu? Não, a história não foi embora! Ela brota e rebrota no leito longo do tempo, com outros matizes talvez, mas prenhe da mesma seiva de que foi feita a alma de um José Tiaraju, de um padre Lourenço Balda, ou de um guarani desconhecido.
Podem mesclar-se as formas, como se misturam as águas, como se juntam as pedras no fundo dos rios. Da arte que imita a arte nas mãos hábeis do artesão até a mais afinada orquestra que a velha catedral já abrigou em sua sombra; do pintor humilde que teceu as pedras da torre na canção das tintas ao cantor famoso que arrastou multidões, não importam as diferenças porque não as há. Todos são movidos por essa história que não quer partir, como partem as almas, como se vão os ventos, como desaparecem as nuvens.
E se ela, a história acontecida, não privilegiou o irmão menor, aquele que acreditou nos pajés de sotaina negra, aquele que respondia “amém” o tempo todo, por incrível, é a única peça viva de um tempo heróico. E viva permanece neles a lição eterna do maior anseio humano, a busca permanente de uma “Terra sem Males”. Talvez seja essa a maior herança da história que não quer ir embora e que floresce, insistente, em cada vinco das pedras de São Miguel.
Este é mais um espaço para a história das Missões Orientais do Uruguai e todas suas manifestações literárias e artísticas, lendas e ritos, fotos e crenças.
quarta-feira, 23 de novembro de 2011
terça-feira, 22 de novembro de 2011
EM SANTO ÂNGELO - 190 ANOS ATRÁS
Mário Simon
Em 22 de março de 1821, o botânico francês Auguste de Saint–Hilaire esteve na aldeia de Santo Ângelo Custódio. Pois é da passagem deste cientista por Santo Ângelo há exatamente 190 anos que buscamos alguns quadros da história do último dos Povos Missioneiros. O cientista partiu de São João Batista acompanhado apenas de dois jovens índios, a cavalo, já que lhe haviam avisado que seria difícil chegar a Santo Ângelo com sua carroça, pois enfrentaria dois rios: o Juimirim (que ele traduz como rio dos sapos), e o Juicuaçu que, sem dúvida, trata dos rios Ijuí e do rio Ijuizinho. Chama-os de rios perigosos.
O que nos interessa desse diário escrito em algum quarto de pedra e pó do antigo Povo de Santo Ângelo é a descrição da igreja, das casas e, principalmente dos habitantes. Que coisa miserável!
- Os jesuítas parecem ter querido demonstrar, de modo simbólico, a sua intenção de não ir mais longe, pois sendo as igrejas de todas as aldeias (das Missões) voltadas para o norte, a de Santo Ângelo olha para o sul. Essa é a conclusão a que o naturalista francês chegou quanto à polêmica a respeito do posicionamento da igreja e, consequentemente, de toda a redução.
Ainda sobre a igreja de Santo Ângelo, Saint-Hilaire diz que era muito semelhante às de São Borja, São Nicolau, São Luiz e São Lourenço (e nós costumamos dizer que é quase uma réplica da de São Miguel). Embora em péssimo estado, ainda conservava muita beleza. Não se refere à estatuária, mas sabe-se que por esta data ainda havia muitos exemplares desta arte missioneira, entre eles o de um Arcanjo que, segundo Wolfgang Hoffmann Harnisch, “montava guarda na tradicional igreja como anjo custódio, na entrada setentrional das Missões”. Esta estátua, segundo o mesmo autor, estaria hoje no Colégio Cristo Rei, dos Jesuístas de São Leopoldo. Mas esta afirmação não se confirmou, pois que lá estivemos procurando-a em novembro de 1983 e, juntamente com o jesuíta e renomado estudioso das Missões Pe.Artur Rabuske–S.J, não vimos nada, nem pistas dessa imagem. Que lástima!
O que mais marca na leitura do diário de Saint–Hilaire sobre Santo Ângelo é o panorama da população santo-angelense de 22 de março 1821. Descreve um quadro de miséria tão grande que o pároco local, chorando, contava-lhe que os pobres índios roubavam couro de boi para comer. Muita gente morreu de fome. Da antiga Redução de Santo Ângelo, que foi o mais rico dos Sete Povos, que recebeu os mais notáveis artistas do tempo, que em 1753 tinha em suas ruas 1.180 residências de índios abrigando 5.417 pessoas, em 1821 Saint–Hilaire encontrou apenas 80 pessoas e, destas, apenas uns dez homens em condições de trabalhar. Das casas, somente seis em condições de habitar. Ele mesmo hospedou-se na residência do padre, da qual descreve o antigo brilho assim: o leito, as cortinas das janelas e das portas são de damasco, mas chove dentro da casa e, em breve, tudo estará estragado.
Quadro pior ainda é o da situação das mulheres de Santo Ângelo, por aquela época. Eram elas que cuidavam das plantações, fazendo duas léguas de ida e duas de volta, diariamente, para o trabalho, enquanto os homens se preocupam em fazer mate. Nesse tocante, à decadência física segue-se a decadência moral. Saint-Hilaire diz que as mulheres são despudoradas e parecem ter nascido para a perdição dos homens de nossa raça. Refere-se à facilidade com que, casadas e solteiras ofereciam-se aos brancos visitadores e, invariavelmente transmitiam-lhes moléstias venéreas. É bom lembrar aqui que os jesuítas haviam se afastado da Redução há 53 anos, expulsos que foram. E os antigos ensinamentos desses padres sobre a moral cristã já haviam sido esquecidos, e tais procedimentos, mesmo à vista de seus maridos, eram feitos e depois relatados com ar de simplicidade, quase de inocência.
É bom lembrar que, neste período de decadência, Santo Ângelo estava sob o governo civil de portugueses. E como só restavam crianças, mulheres e alguns homens velhos, e muita imoralidade, Saint–Hilaire, escreveu ao administrador português das Missões, coronel Antônio José da Silva Paulet, sugerindo-lhe que extinguisse três dos antigos Sete Povos: Santo Ângelo, São Luiz e São Lourenço. Só assim haveria mais facilmente de se cuidar das outras aldeias e dar-lhe a assistência devida. No entanto, a história se fez diferente: Santo Ângelo não foi suprimida, embora chegou a ficar totalmente desabitada por algum tempo. Exatos 52 anos depois, emancipava-se.
P.S. –(Texto condensado e adaptado de parte do capítulo III do livro Os Sete Povos das Missões -Trágica Experiência, de nossa autoria.
O que nos interessa desse diário escrito em algum quarto de pedra e pó do antigo Povo de Santo Ângelo é a descrição da igreja, das casas e, principalmente dos habitantes. Que coisa miserável!
- Os jesuítas parecem ter querido demonstrar, de modo simbólico, a sua intenção de não ir mais longe, pois sendo as igrejas de todas as aldeias (das Missões) voltadas para o norte, a de Santo Ângelo olha para o sul. Essa é a conclusão a que o naturalista francês chegou quanto à polêmica a respeito do posicionamento da igreja e, consequentemente, de toda a redução.
Ainda sobre a igreja de Santo Ângelo, Saint-Hilaire diz que era muito semelhante às de São Borja, São Nicolau, São Luiz e São Lourenço (e nós costumamos dizer que é quase uma réplica da de São Miguel). Embora em péssimo estado, ainda conservava muita beleza. Não se refere à estatuária, mas sabe-se que por esta data ainda havia muitos exemplares desta arte missioneira, entre eles o de um Arcanjo que, segundo Wolfgang Hoffmann Harnisch, “montava guarda na tradicional igreja como anjo custódio, na entrada setentrional das Missões”. Esta estátua, segundo o mesmo autor, estaria hoje no Colégio Cristo Rei, dos Jesuístas de São Leopoldo. Mas esta afirmação não se confirmou, pois que lá estivemos procurando-a em novembro de 1983 e, juntamente com o jesuíta e renomado estudioso das Missões Pe.Artur Rabuske–S.J, não vimos nada, nem pistas dessa imagem. Que lástima!
O que mais marca na leitura do diário de Saint–Hilaire sobre Santo Ângelo é o panorama da população santo-angelense de 22 de março 1821. Descreve um quadro de miséria tão grande que o pároco local, chorando, contava-lhe que os pobres índios roubavam couro de boi para comer. Muita gente morreu de fome. Da antiga Redução de Santo Ângelo, que foi o mais rico dos Sete Povos, que recebeu os mais notáveis artistas do tempo, que em 1753 tinha em suas ruas 1.180 residências de índios abrigando 5.417 pessoas, em 1821 Saint–Hilaire encontrou apenas 80 pessoas e, destas, apenas uns dez homens em condições de trabalhar. Das casas, somente seis em condições de habitar. Ele mesmo hospedou-se na residência do padre, da qual descreve o antigo brilho assim: o leito, as cortinas das janelas e das portas são de damasco, mas chove dentro da casa e, em breve, tudo estará estragado.
Quadro pior ainda é o da situação das mulheres de Santo Ângelo, por aquela época. Eram elas que cuidavam das plantações, fazendo duas léguas de ida e duas de volta, diariamente, para o trabalho, enquanto os homens se preocupam em fazer mate. Nesse tocante, à decadência física segue-se a decadência moral. Saint-Hilaire diz que as mulheres são despudoradas e parecem ter nascido para a perdição dos homens de nossa raça. Refere-se à facilidade com que, casadas e solteiras ofereciam-se aos brancos visitadores e, invariavelmente transmitiam-lhes moléstias venéreas. É bom lembrar aqui que os jesuítas haviam se afastado da Redução há 53 anos, expulsos que foram. E os antigos ensinamentos desses padres sobre a moral cristã já haviam sido esquecidos, e tais procedimentos, mesmo à vista de seus maridos, eram feitos e depois relatados com ar de simplicidade, quase de inocência.
É bom lembrar que, neste período de decadência, Santo Ângelo estava sob o governo civil de portugueses. E como só restavam crianças, mulheres e alguns homens velhos, e muita imoralidade, Saint–Hilaire, escreveu ao administrador português das Missões, coronel Antônio José da Silva Paulet, sugerindo-lhe que extinguisse três dos antigos Sete Povos: Santo Ângelo, São Luiz e São Lourenço. Só assim haveria mais facilmente de se cuidar das outras aldeias e dar-lhe a assistência devida. No entanto, a história se fez diferente: Santo Ângelo não foi suprimida, embora chegou a ficar totalmente desabitada por algum tempo. Exatos 52 anos depois, emancipava-se.
P.S. –(Texto condensado e adaptado de parte do capítulo III do livro Os Sete Povos das Missões -Trágica Experiência, de nossa autoria.
Assinar:
Comentários (Atom)