sábado, 1 de fevereiro de 2014

TRAJETÓRIA HUMANA



                                              Mário Simon

Mal desperta o homem na terra,
Não sabe onde, nem como,
E já o atropelam os seres
E as quimeras.

Se soubesse o destino da via
Voltaria ao sono eterno.
Mas, desperto, impossível o retorno,
Que é certo um dia.

E vagando vai em rumo vago.
Em todas as ilhas, uma esperança,
Sem saber que elas flutuam
E se vão ao largo.

Não há nesta vida seguro porto,
Nem âncoras que se estabeleçam.
É por isso que o homem é triste
E absorto.

Nem a glória é permanente,
Nem o amor que se não entende.
A mais rija fortaleza que tem
Acaba doente.

Nem tem com se que preocupar,
Não é nada, não se conhece, passa incógnito.
O que há é uma culpa em cada vida
Que nasce!

No somatório, há mais dores
Na existência, que alegrias.
Até os espinhos duram mais
Que as flores.

Todas as trilhas são feitas por outros.
Por que segui-las então?
Liberdade é privilégio único
Dos loucos.

É assim, abismos e sumidouros,
Penhascos e turvas águas,
Infinitos oceanos de angústia
E desdouro.

Ah, se houvesse o que dizem luz,
Ah, se existisse a felicidade longe,
Talvez o homem carregasse flores
Em vez de cruz.


Esse poema, escrevi-o em 2000, depois de conhecer o poeta Bruno Tolentino e conviver alguns 
dias com ele. Naquela ocasião, escrevi o que segue:



  (Para o poeta Bruno Tolentino) – Inverno de 2000)


Caro Bruno!
             Conheci-o tão recentemente e me parece que já o conhecia desde tempos que se perderam na bruma de angústias nunca entendidas. Tenho convicção que nem devemos entender plenamente nossas angústias todas. Acabei de ler A Balada do Cárcere e, mais do que tudo, sofro de inveja entre outros sofrimentos que o livro me trouxe. Sofrimentos como o desejo da paz que sobrevoa a narrativa daquele doente de Her Majesty Prison Dartmoor. Parece-me que a viagem do Numeropata é a viagem de todo poeta e, quiçá, de todo ser humano.

         Mário Simon